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    A PALAVRA COMO AGENTE DO PRECONCEITO E DO FANATISMO

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    NIEROZUMIEN

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    A PALAVRA COMO AGENTE DO PRECONCEITO E DO FANATISMO

    Mensagem  NIEROZUMIEN em Ter Set 29, 2009 2:54 pm

    Trabalho do filólogo alemão Victor Klemperer aborda a linguagem do 3.º Reich em sentido mais amplo do que a narrativa das atrocidades contra o povo judeu
    Por Regina Schöpe, ESPECIAL PARA O ESTADO (*)

    Quanto mais inconsciente ou subliminar é a linguagem, mais fortemente ela age sobre nós, mais ela nos domina e dirige. Os filósofos sabem bem disso e também os filólogos, que veem nela não apenas uma ferramenta da razão para dar conta do mundo, mas, sobretudo, uma espécie de segunda natureza; algo que, de certa forma, produz o mundo, e não apenas o representa. Desde a Antiguidade, os gregos já se deparavam com esta questão e se Sócrates e Platão tinham tanto horror dos sofistas é porque estes mostravam, com toda a crueza, que era possível sobrepor-se à realidade e inventar o mundo a partir das palavras. Nietzsche - que além de filósofo também era filólogo - entendia bem este universo da linguagem, que ele chamava de "duplo afastamento do real", de "segunda metáfora", já que os homens acabavam por lidar apenas e tão somente com conceitos e não mais com o mundo em si. Se é possível ou não dar conta das coisas e do mundo, essa é outra questão. O importante é entender quanto a linguagem nos constitui, ou seja, o quanto as palavras podem, ao mesmo tempo, servir à vida, mas também ajudar a destruí-la.

    É partindo do ponto de vista de que quanto mais inconsciente, "mecânica" ou repetitiva é uma linguagem, mais "encarnada" ela está nos homens e, por conseguinte, mais poderosa e perigosa ela é (porque seus sentidos e significados já não são mais pensados ou problematizados), que o livro LTI - A Linguagem do Terceiro Reich (Contraponto, 425 págs., R$ 60, tradução de Miriam B.P. Oelsner), do filólogo alemão Victor Klemperer, ganha um sentido todo especial. Um sentido que vai além da própria narrativa dos horrores do nazismo ou do sofrimento do povo judeu e de todos os demais grupos que foram massacrados em nome de ideais de superioridade distorcidos e monstruosos.

    LTI (Lingua Tertii Imperii) nasceu dos diários de Klemperer, que ele escrevia desde muito jovem, mas se tornaram ainda mais vitais no período em que o nazismo ascendeu ao poder e subverteu o mundo alemão (e "outros mundos" também). O livro é uma mostra de como a linguagem vai produzindo as coisas e de como as palavras, libertas de um sentido preciso ou repetidas de modo vazio e pobre, podem construir o fundo não apenas do preconceito racial, mas de qualquer preconceito e fanatismo. Neste caso, como diz o próprio Klemperer, as palavras funcionam como "pequenas doses de arsênico", que vão nos envenenando aos poucos. Professor de letras românicas na Universidade de Dresden, Klemperer, que era um judeu plenamente integrado à cultura alemã, conheceu bem de perto a força das palavras e de construções simbólicas que podem ferir e matar bem mais do que supomos. Tendo conseguido escapar dos campos de concentração, nem por isso Klemperer deixou de sentir na carne a crueldade que, para alguns, só a maldade pode justificar - ainda que, para o grande Sócrates, a razão de toda maldade ou erro esteja fundamentada na ignorância.

    Se é mesmo apenas por ignorância que os homens se tornam intolerantes e cruéis, fanáticos e tiranos, é algo que não nos cabe tratar aqui. Porém, a verdade é que em LTI vamos nos deparar com um povo (que não é propriamente o modelo de um povo ignorante) reproduzindo, como zumbis ou papagaios humanos, discursos que violentam o bom senso e a razão.

    Seja por que razão for, o que fica bem claro no livro de Klemperer, é que todo sistema com ambições totalitárias tem necessidade de produzir um discurso e uma mitologia, palavras de ordem e heróis, slogans publicitários e logomarcas. Trata-se de uma empresa tão poderosa de ilusões e falseamentos (como, aliás, toda propaganda que só pensa em vender seu produto sem nenhum compromisso moral ou ético) que só isso pode explicar como uma cultura que produziu tanta beleza e pensamento, por intermédio de obras como as de Goethe, Beethoven, Schopenhauer, Nietzsche ou Wagner, tenha mergulhado na irracionalidade e na intolerância.

    É verdade que Klemperer já vê nos excessos do romantismo alemão, na paixão por uma mitologia que enaltece o germanismo, os primeiros sinais de uma mudança que redundaria no nazismo. Mas, no fundo, o problema não está num povo se sentir superior aos demais (isto não é incomum); o problema está na fugacidade das palavras (ou de seus sentidos) ou, mais ainda, na distorção e no caráter irrefletido de sua utilização, que faz com que seja possível se apropriar de uma ideia grandiosa e transformá-la em "pó e esquecimento" (como diria Borges). É assim que o herói passa a ser representado por um nazista cruel e o "super-homem" e a "vontade de potência" de Nietzsche (tão contrários a tudo o que o homem tem produzido de baixeza e covardia) passam a representar o desejo de hegemonia e de dominação do Terceiro Reich.

    Por muitas razões, este LTI (que nos chega graças ao belo trabalho de Miriam Oelsner, que fez a tradução e as centenas de notas que enriquecem o texto) nos parece mesmo imprescindível, não apenas por mostrar a dor de um povo que foi escolhido como bode expiatório, mas, sobretudo, para revelar um paradoxo fundamental: que a mesma capacidade criativa que nos faz humanos e superiores aos demais, é também a que nos subverte e nos torna desumanos - ou seja, somos vítimas de nossa própria grandeza e ilusões.



    (*) Regina Schöpke, filósofa e historiadora, é autora de Matéria em Movimento (Martins Editora), entre outros
    Fonte: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20090927/not_imp441580,0.php
    http://brasilacimadetudo.lpchat.com/index.php?option=com_content&task=view&id=7565&Itemid=1


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    *" NUTRA A SUA MENTE COM GRANDES PENSAMENTOS, POIS VOCÊ NUNCA IRÁ CRESCER MAIS ALTO DO QUE VOCÊ PENSA "*.

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